Prioridade: Crack S.A ou um Governo Catalisador de Empreendimentos Inspiradores?

Nesta primeira semana de fevereiro o Ministro Barroso sugeriu a liberalização de drogas, a começar por maconha e cocaína, como forma de reduzir a violência nas cadeias. Argumenta que se gastam bilhões de reais e a situação só piora.

Não gostei da simplificação proposta pelo ministro e procuro aqui explicar melhor a minha inquietação, em relação à sociedade em que vivemos. Por meio de tópicos talvez fique mais claro:

I – Premissas pessoais:

Não consumo nem nunca consumi, mas não tenho nada contra quem consome. Para mim, o consumo em si não é um problema moral. Preocupo-me com o que um drogado pode fazer de prejudicial a outrem e de alguma forma também a si como importante potencial de contribuição à sociedade.

II – Premissas técnicas das drogas:

  1. Drogas podem viciar e, a depender de vários fatores, podem prejudicar seriamente neurônios e sistemas mentais.
  2. Drogas alteram a percepção sensorial e julgamento, o que pode dar prazer. Algumas delas podem tornar as pessoas agressivas e inconsequentes.
  3. Drogas nem sempre viciam. Fala-se em “apenas” 15% de quem experimenta. Logo, há quem as consuma apenas como recreação.
  4. A famosa experiência da Ratolândia nos anos 60 foi elaborado com dois grupos de ratos – (A) um confinado em solitárias e outro (B) em amplos espaços com recreação. Ambos tinham disponíveis doses iguais de drogas potentes, tipo heroína. Uma conclusão rápida que pode ser melhor observada no link a seguir, é que os ratos que tinham uma boa vida recusavam-se a se viciar enquanto aqueles sem perspectiva se drogavam muito mais, às vezes até morrer. http://www.stuartmcmillen.com/comics_pt/ratolandia/
  5. Acredito que a experiência da Ratolândia tenha validade técnica pois preserva os conceitos de Antonio Damásio quanto ao que uma pessoa pode fazer a partir do seu “estado emocional de fundo”. Logo, se um indivíduo adulto tem o ego bem construído e toda uma estrutura firme quanto a propósitos na vida, tem melhor consciência e controle para não arriscar demais sua vida por conta de prazeres momentâneos. Por outro lado, um ego em formação, como o de jovens, é naturalmente mais frágil. Sendo esse jovem alguém sem perspectiva de crescimento intelectual, social, econômico e profissional, podemos assumir que seja alguém ainda mais frágil perante a potencialidade do vício.

III – A difícil realidade da juventude carioca:

  1. Todo jovem gostaria de obter sucesso social e econômico.
  2. O Rio, capital do Estado, tem cerca de 6,4 milhões de habitantidade-ibgees.
  3. Cerca de 10% da população, ou meio milhão de jovens entre 15 e 24 anos, não trabalha. Ainda que alguns não precisem, é razoável assumir que a imensa maioria precisará um dia trabalhar, seja como empreendedor ou como empregado.
  4. Não há emprego para todos nem perspectivas de melhora atualmente. Além dos problemas atuais, altas taxas de juros e cargas tributária e trabalhista insuportáveis impedem a proliferação de empreendimentos saudáveis no Rio e no Brasil.
  5. A perspectiva do jovem carioca atualmente assemelha-se mais à angústia sentida pelos ratos confinados, grupo (A). Muita gente boa exposta e fragilizada diante do risco do vício em drogas. Acredito ser possível associar ideias e concluir porque há tanta criminalidadej praticada por jovens no Rio e, por extensão, também no Brasil

 

 

IV – A realidade dos empreendimentos de consumo de massa:

  1. Todo empreendedor tem o direito de ficar rico
  2. Abrir o capital e ganhar centenas de milhões de reais, ou mesmo bilhões, num IPO da bolsa de valores é o sonho de todos.
  3. Legalizando o comércio de derivados de cocaína poderá haver muitas pessoas criando empresas de drogas de derivados de cocaína. Algumas poderão ser pequenos quiosques. Vamos imaginar aqui a Crack Ltda. seja a mais preparada.
  4. Um dos maiores investidores da Crack Ltda. poderá ser o “laranja” de algum facínora hoje preso por tráfico. Aliás, seus principais executivos poderão ser os seus atuais comparsas, pois dominam o processo produção de distribuição e conhecem bem o mercado, inclusive os clientes.
  5. Um dia a Crack Ltda. poderá querer consolidar o mercado de venda de cocaína e derivados capitalizando-se via ações em Bolsa – via IPO. Torna-se a Crack S.A.
  6. Dona Toninha é uma costureira séria e trabalhadora, que se preocupa com investimentos para sua aposentadoria. Ela ouviu falar do lançamento de ações da Crack S.A. e lhe disseram que dará um retorno maior do que 30% ao ano. Ela toma conhecimento que a empresa dará esse imenso retorno porque crescerá em virtude de seu agressivo plano de expansão.
  7. O plano de crescimento da Crack S.A. prevê vendas em farmácias, bares, lanchonetes, supermercados etc. Os acionistas irão querer que se invista em boas disposições nas prateleiras, da mesma forma como os cigarros estão hoje – no caixa. Então é preciso imaginar que a criançada, inclusive as nossas, que for comprar um Cebion na farmácia ou um chocolate nos pontos de venda, irá encontrar cocaína em grande destaque na melhor gôndola ou prateleira, ainda que com o aviso “faz mal”. Mas é perfeitamente natural que os acionistas torçam cada vez mais pelo aumento das receitas, ou seja pelo aumento do consumo de drogas da população em geral.
  8. Dona Toninha tem um dilema moral – é isso que ela quer para a sua cidade, para o seu país? Mais e mais pessoas viciadas em drogas (15% de seus consumidores, conforme assunção acima)?

Parece-me que o caminho da legalização é algo realmente inevitável. Porém acredito que mais importante que falar disso agora é discutir sobre como levar os nossos jovens a sonhar com objetivos realmente engrandecedores para o seu futuro, ao invés de gastar tempo apenas em explicações quanto aos malefícios das drogas.

Penso que toda a energia atual deveria se concentrar na emergencial necessidade de alocação da mão de obra juvenil do nosso país em empreendimentos inspiradores e lucrativos, que permitam a todos realmente sonhar e conquistar dias melhores. A ter esperança. É preciso que o Governo seja um catalisador dessa iniciativa, que precisa mobilizar toda a sociedade.

Insisto que não cabe a um servidor público de grande exposição colocar as coisas da forma como o Dr. Barroso fez. Considero desleixo e irresponsabilidade.

Há muito mais para se discutir.

Ricardo Negreiros

Ne Nuntium Necare

globo-ne-nuntium-necareAntigamente a esquerda botava a culpa de todas as mazelas do mundo na mídia, especialmente na Globo.

Agora a direita bota a culpa de todas as mazelas do mundo na mídia, especialmente na Globo.

Vamos parar com essa bobagem? Publiquemos as nossas verdades aqui, em blogues e em vlogues. Cativemos as atenções com a nossa verdade, com análises e propostas interessantes.

Paremos com os ataques e rótulos aos profissionais da mídia, estejam eles certos ou errados em sua humanidade. Lembremos que, se há um problema, está sempre no noticiado. Jornalistas podem errar em suas análises e opiniões tanto quanto podem os nossos melhores mestres e professores.

Não mate o mensageiro.

P.S. A Globo realmente derrubou o PT no domingo (17/4/16) de votação do impeachment na Câmara. Bonner pressionou os deputados, expondo-os o dia inteiro. Só por isso sou grato à Globo, ainda que provavelmente ali fosse uma luta particular, de vida ou morte. Se o PT ficasse no poder, um dia iriam fechar a Globo.

Ainda que haja uma linha editorial do veículo para uma direção ou outra ocasionalmente, acredito que devamos nos concentrar na informação em si e tirar as nossas próprias conclusões. Um jornalismo livre é fundamental para a democracia.

Quero apenas poder contar com os veículos de comunicação que prezem e trabalhem por um país livre da corrupção. Não gostou? Mude de canal, mude de revista.

A bela visão do Papa Francisco sobre a proteção de animais e do ambiente natural

Acabo de ler a encíclica “Laudato si” do Papa Francisco, de 2015.
É uma obra belíssima, que retrata a inteligência e a perspicácia do papa num dos temas mais importantes da atualidade: a responsabilidade do ser humano diante do ambiente natural em que vive.
Apesar de divergir de algumas opiniões dele em tópicos de caráter econômico e outros quanto à natureza humana, reconheço uma genuína e lúcida preocupação com o nosso mundo.
Chamo a atenção para sua bela abordagem quanto à dignidade dos animais, assunto que me preocupava por chamar-se Francisco.
Discordo da reclamação dele (2016) de pessoas cuidarem mais de animais em detrimento a outras pessoas. Ele não quer aceitar que ajudar a outras pessoas requer um grau de doação que muitas vezes não é possível a um indivíduo comum. E os animais, por sua imensa fragilidade, são muito mais frequentemente submetidos a crueldades.
Creio que aposta demais na humanidade, esquecendo os fatores evolutivos intrínsecos que leva a nossa espécie a pensar sempre primeiro em si e muito pouco nos outros. É da nossa natureza. Penso que deveria reconhecer isso e rezar para que a transcendamos.
Parece-me muito difícil ainda para muita gente perceber e aceitar o quão primitiva ainda é a nossa espécie, a nossa sociedade global.
De qualquer maneira, essa encíclica é um importante avanço para a religião e para a filosofia.


https://m.vatican.va/content/francescomobile/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

Um pouco do que sou, por Ricardo Negreiros

Oceania

Sou casado há 32 anos, dois filhos e três netinhos. Minha vida tem sido totalmente dedicada à minha família. Eu e minha mulher Aparecida, uma formidável protetora de animais reconhecida internacionalmente, temos dedicado o nosso tempo e energia para tentar construir um mundo melhor, no limite de nossas competências.

Nasci em 1963 em Fortaleza. Meus pais se separaram em 1972, quando eu tinha nove anos e minha irmã três. Fomos morar num sítio nos arredores da cidade, onde não havia água encanada nem energia elétrica. Embora o choque de sair da Aldeota e mudar de escolas de primeira linha para escolas públicas, lembro-me com muito carinho dessa época. Mesmo com o estômago roncando, as coisas são sempre bem mais fáceis quando se tem o amor incondicional de mãe e avó por perto.

Em 1975 minha mãe vendeu o sítio e viemos para o Rio. Com pouco dinheiro e nenhuma experiência profissional, por alguns anos vivemos de biscates e das dificuldades de pagar o aluguel. Assim moramos e saímos rapidamente (risos) de Copacabana, Botafogo, Meier, Encantado, Piedade, Engenho de Dentro e Rocha Miranda, sendo esse último endereço uma espécie de porão com o chão úmido de esgoto. Nesse período trabalhei no que podia, como vender pastéis (horríveis) no Maracanã, fazendo faxina, panfletando na rua, dando reforço de aula enquanto a minha mãe trabalhava de manicure e fazia bolos e salgados para a vizinhança.

Em 1979 entrei no Citibank como office boy. No final daquele ano passei em primeiro lugar em Engenharia Civil na Souza Marques. Sem dinheiro para as mensalidades, o banco pagou toda a faculdade, onde me graduei em 1985 em Cálculo Estrutural.

Em 1987 entrei na área de auditoria da Arthur Andersen, que também custeou Ciências Contábeis na FASPA, onde me graduei como contador em 1991. Em pouco mais de dois anos de experiência e alguns cursos nos EUA e Argentina, tornei-me encarregado de campo na auditoria de importantes instituições financeiras, como as do Grupo Sul América, a financeira Losango e o incipiente Banco Pactual, que na época demandava ainda grande necessidade de organização.

Fui convidado para assumir a controladoria do Pactual em 1990, aos 26/27 anos, e por lá fiquei dez anos. Gradualmente modelei a parte administrativa do banco para permitir a completa consistência dos dados e a transparência dos números. Um período de muita atividade e também intenso de experiência e aprendizado, incluindo o MBA de Finanças do IBMEC concluído em 1994, também pago pelo banco.

Naquele período fiz parte de comitês na Febraban, BM&F e nas antigas Andima e Anbid, sendo envolvido em toda a sorte de discussões sobre legislação regulatória e fiscal com Banco Central e Receita Federal. Em virtude da minha crescente especialização em governança, o Pactual me convocava para tudo o que demandasse essa expertise, principalmente nos projetos de Fusão e Aquisição.

Com o tempo ficou clara para mim a grande carência de conhecimentos financeiros e administrativos nas empresas brasileiras. Percebi que toda quebradeira tem sempre um ponto em comum: a falta de governança, de monitoramento, organização e de transparência para os próprios donos.

O ambiente intelectual em um bancos de investimento é do mais alto nível. Mas trabalhar em estruturas luxuosas e lidar com colegas graduados nas melhores faculdades do mundo, em um setor que não conhece dificuldades financeiras, não nos torna apropriadamente sensíveis à realidade econômica, ao dia a dia de um empreendimento comum. Ao contrário, tudo nos parece bem mais fácil do que realmente é. São muitos os exemplos de problemas decorrentes dessa falta de experiência. Basta ler as histórias nos jornais e revistas especializadas. Portanto, apesar da experiência profissional em bancos sofisticados, queria aprender mais sobre o setor real da economia.

Em 2000 fundei a RN Executivos, uma empresa que até hoje tem apenas sócios e nenhum empregado. Acredito no poder das soluções negociadas e na cooperação mútua sem que seja preciso forçar as pessoas a trabalhar sem entender ou concordar com o que fazem. Nesses 16 anos de atividade nos tornamos reconhecidos como profissionais de alto desempenho. Atuamos em diferentes projetos de melhoria e de recuperação, sempre focados em resultado e cooptação das pessoas para objetivos comuns. Ajudamos dezenas de empresas nos mais diversos segmentos da economia a lançar ações em bolsa de valores, a serem vendidas para outros grupos, a melhorar os seus resultados e mesmo a sair do maior sufoco. É um trabalho feito em conjunto com os donos e profissionais locais, onde nos colocamos apenas como aqueles indivíduos que materializam os interesses estratégicos dos acionistas. Temos um jeito forte e determinado a melhorar a organização e a cultura de governança do empreendimento para que conquiste solidamente os espaços do seu mercado. Somos os profissionais que também ajudam a instalar nos grupos familiares o valor do reconhecimento meritório pelo que fazem os seus colaboradores. Que os ajudam a concentrar energia para obter resultados saudáveis e a perenização do empreendimento. Adotamos a postura mais discreta possível quanto ao nome de nossos clientes exatamente por entender que eles, com seus colaboradores, são os verdadeiros realizadores do sucesso, e que não faz o menor sentido atrair qualquer tipo de protagonismo. Para quem quiser saber um pouco mais sobre o meu trabalho recomendo pesquisar no Google, onde há bastante material. Eis, por exemplo, uma das minhas palestras na Endeavor: https://www.youtube.com/watch?v=YrS8ZAQRrwY. Segue também aqui o resumo de algumas entrevistas: https://www.youtube.com/watch?v=_QLAOUWCJaI

Bem, isso resume o meu lado profissional. Graças a Deus, definitivamente consolidado. Mas não julgo satisfatório me dedicar apenas a perseguir mais e mais sucesso e dinheiro. Em 2002 escrevi o livro “Carta para meus filhos, construindo o futuro” onde manifestei a importância de se conquistar realizações de maior significado. Então, vamos falar de algumas outras atividades:

– Preocupado com o volume de empresas com dificuldades no Brasil, e objetivando a disseminação de nossos consolidados conceitos de gestão, em 2010 lancei o livro “Manual do Reestruturador de Empresas”, já esgotado nas livrarias. Preciso lançar a segunda edição.

– Preocupado com a má qualidade de vida do cidadão carioca, em 2015 lancei, em conjunto com um grupo maravilhoso de jovens profissionais colegas do Partido Novo, o Projeto Reinventando Cidades (#reinventandocidades), uma abordagem inteiramente nova de ver e administrar as nossas cidades. O projeto é uma adaptação da minha experiência de quase 40 anos em projetos desafiantes da iniciativa privada em material político de natureza prática. Já estamos atuando com dezenas de colegas de outras cinco capitais e quase vinte cidades, enquanto escrevemos o livro onde apresentaremos a nossa abordagem: “Reinventando Cidades – um guia para a reestruturação de municípios”. Ele conterá praticamente um plano de governo para o município do Rio de Janeiro, contendo diagnóstico e plano de ação para Saúde, Educação, Segurança, Infraestrutura, Desenvolvimento Sustentável e Reorganização Administrativa. Já no início propomos a redução de 30 para apenas 8 secretarias operacionais.

Acreditamos firmemente que uma cidade pode ser gerida de acordo com os princípios de governança e foco em resultado da iniciativa privada, ou seja, na entrega de serviços e produtos de qualidade e custos apropriados ao cidadão-cliente. Em 27 de fevereiro fizemos um workshop que foi postado em oito vídeos na internet, a começar pelo https://www.youtube.com/watch?v=4avBaHprnJ4 . Os demais estão bloqueados apenas para quem quiser participar do projeto.

– No meu blogue https://reestruturador.wordpress.com/ deposito e exponho as minhas principais reflexões conceituais e filosóficas. Considero-me uma pessoa simples e despretensiosa, o que confunde um pouco quem não me conhece. Mais que falar de sucesso, negócios ou política, tenho preferido mergulhar na análise da alma humana, procurando desvendar onde tudo se inicia. Tenho fascínio por tentar capturar e divulgar as minhas conclusões de uma maneira simples e prática, ressaltando a grandeza e a importância da vida. A partir dessa motivação essencial, e inspirado no trabalho de minha mulher, em 2011 lancei o projeto Life Defenders sobre proteção de animais. A primeira peça de teatro já foi encenada no Mato Grosso. Faltam publicar os dois primeiros livros já escritos. Vale uma olhadinha no clipe do projeto em https://www.youtube.com/watch?v=kZ1VlAyNk2I.

Creio já possuir maturidade e experiência suficientes para trabalhar em qualquer desafio de transformação, seja em um empreendimento público ou privado. A partir do método de trabalho que desenvolvi como reestruturador, acredito que posso realizar um trabalho bastante inovador em atividades governamentais. É preciso atuar corajosa e firmemente contra a ineficiência, o desperdício e os desvios da administração pública.

Estou sempre à disposição para colaborar de forma determinada na construção de um Brasil melhor.

 

 

Minha concepção da “Real Realidade” na busca pela verdade

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A revista Época publicou discretamente em 2/11/15 uma notícia de extrema importância do ponto de vista científico, filosófico e religioso: a comprovação da não localidade do universo, contrariando rabugices do grande Einstein. Prova entre muitas de que, em minha modesta opinião, a ciência está ainda muito longe de compreender como surgimos e o que diabos estamos fazendo por aqui. É mais uma marretada na arrogância dos que se supõem conhecedores da vida, como o Sr. Richard Dawkins.

Há cerca de 2.500 anos o filósofo Platão observou que havia uma ignorância dependente da percepção humana. O mito da caverna de Platão retrata o seu exercício imaginativo de alguém preso em uma caverna, que conhecia o mundo apenas pela projeção das sombras em suas paredes. Sombras de estátuas, por exemplo, lhe pareceriam pessoas imóveis e nessa linha de raciocínio teria uma visão altamente restrita do que é o mundo na verdade. Apontava, assim, que as pessoas se enganavam em suas avaliações e conclusões por limitações do seu campo de visão ou de análise.

Atualmente é possível acrescentar outros elementos à brilhante conclusão de Platão quanto ao ponto de vista do prisioneiro. De fato, é comum cometermos erros de todos os tipos em decorrência da nossa ignorância sobre os assuntos com que lidamos. Contudo, há a necessidade de avaliar também se de fato temos a competência para tal percepção. Ou seja, podemos não conseguir perceber algo por restrições ao nosso intelecto, pela falta de determinado tipo de conhecimento. Por exemplo, nem todo mundo compreende a grande correlação entre a alta do dólar e a inflação. Podemos encontrar ossos de aves extintas num parque florestal e acharmos que são ossos de galinha… Enfim, os exemplos do nosso cotidiano podem ser inúmeros.

Mas a nossa limitação intelectual pode ser suprimida pelo aprofundamento e pelo estudo de um determinado tema, porém ainda assim haverá pessoas que por mais que leiam ou estudem não encontrarão as respostas mais elementares. Isso porque a grande maioria de nós tem aptidões específicas para temas, como é o caso dos advogados por leis, físicos por matemática, médicos por biologia etc. Se trocarmos tais profissionais por diferentes aptidões teremos um monte de gente inteligente extremamente confusa…

Há ainda outro tipo de deficiência, de natureza muito mais grave. São as deficiências neurológicas, que alteram completamente a percepção do mundo, impedindo que as conclusões aparentemente mais lógicas sejam impossíveis de atingir. A ciência ainda está engatinhando na direção do aprendizado a respeito de como a mente funciona, e sua especialidade ainda é basicamente diagnosticar as consequências sintomáticas, e não as causas biológicas, mas é útil sabermos identificar patologias como:

  • Autismo – dificuldade de compreender a comunicação social
  • Agnosia facial – não reconhece rostos. Agnosia em geral pode acometer outros sentidos.
  • Esquizofrenia – dificuldade em distinguir o imaginário (delírios) da realidade
  • Dislexia – dificuldade para interpretar a leitura

São muitos os exemplos de anomalias, mas o que considero importante é o autorreconhecimento de nossas próprias deficiências, seja as de uma ou de outra natureza, inclusive circunstanciais, como nas vezes em que avaliamos algo sob forte emoção. Já que não podemos fugir de nossa humanidade, de nossas limitações, penso que o mais importante é que deixemos de lado a arrogância que nos leva a achar que apenas nós estamos certos sobre determinado assunto. Penso que devemos nos acostumar a escutar mais o outro e compreendê-lo em suas idênticas limitações.

Costumamos encontrar grandes confusões, com resultados trágicos, no cotidiano quanto a essa mistura intensa entre realidade, percepção e competência de análise. É o caso, por exemplo, do Exército Islâmico, que resolveu acreditar que conhece profundamente os intrincados desejos de Deus. Lula também deve achar que o que cobrava da Odebrecht era justo pelo que achava que fez pelos pobres. Enfim, cada doido…

A verdade parece ter várias faces, mas isso também não é uma verdade. A verdade costuma ser uma só, a que apelidei de “real realidade”. O problema é que ela costumeiramente se esconde abaixo de muitas camadas de informações, sutilezas, interpretações e limitações, onde parece repousar irônica e desafiante no meio de um intrincado labirinto.

Acho que a única saída para frustrá-la em sua arrogância e superioridade inatingível é diante das grandes questões não desistirmos de encarar de pé as tortuosidades de seu labirinto, repetindo humildes no caminho o que o mestre de Platão, Sócrates, nos ensinou: “Só sei que nada sei”. E completar: “Mas não vou desistir”.

A perspectiva de Hoag

(TEXTO EM DESENVOLVIMENTO)

Objeto de Hoag

O Objeto de Hoag é um aglomerado galáctico localizado a uns 600 milhões de anos-luz daqui, na Constelação da Serpente. O formato simétrico circular, onde várias estrelas anãs azuis se posicionam em ao redor de um grande objeto luminoso, não dá aos cientistas nenhuma pista de como aquela formação se desenvolveu, mesmo àqueles acostumados a avaliar galáxias resultantes do choque entre outras galáxias.

No livro “O Universo Inteligente”, de James Gardner, ele coloca em termos hipotéticos que, se tiver que existir vida inteligente no universo além de nós, o Objeto de Hoag tem alguma possibilidade de ser uma formação arquitetada por inteligências altamente desenvolvidas.

Alheio às conjecturas e dúvidas do assunto, gosto de lembrar do papo que tive sentado num botequim supermoderno em Hoag, discutindo, entre outras coisas, sobre o planeta Terra, que aparecia numa imagem holográfica suspensa no centro de nossa mesa:

– E aí, já foi lá, Etnop’an? Perguntei eu a meu novo amigo com o mesmo orgulho esperançoso de quando pergunto por aqui de Fortaleza, minha terrinha.

– Ainda não, estou esperando tirar umas férias. Ir em missão nunca é legal. Esse negócio de ficar fazendo relatórios e experimentos tira o prazer de qualquer viagem, respondeu Etnop’an.

Gendé’iman, querido amigo de longa data cuja carta publiquei no meu livro Entranhas em 2000, já bastante livre dos freios da diplomacia em virtude dos dois copos da maravilhosa cerveja cintilante (não é nome da marca, é o jeitão dela, mesmo), resolveu comentar:

– Olha, Ricardo, eu sei que você se orgulha das praias, do clima, do sol e tudo o mais do seu planeta, mas vou te contar uma coisa… ô povo enrolado vocês têm por lá…

Sabendo do meu genuíno temperamento autocrítico, e percebendo que eu já estava liberando o sorriso para receber pacificamente as pedradas, ele continuou:

– Nesse ano de 2014 não se falou em outra coisa lá a não ser em falta d’água, gente decepando gente, gente defecando incessantemente nas praias, regiões superdesenvolvidas separadas por muros invisíveis de outras muito subdesenvolvidas, de onde se quer fugir ao invés de desenvolver… Você sabe disso, Ricardo… E, pior, lá tem um monte de gente que diz que nada daquilo é problema dele, mas só anda de carro blindado, bota um monte de equipamento de segurança na residência para proteger os filhos, achando que vive numa ilha … Olha, num planeta pequerrucho (e fez sinal de miúdo com dois dos seis dedos), de clima e bioma espetaculares, com ¾ de superfície coberta de água, com os avanços tecnológicos caminhando a passos largos, eu não entendo como é que ficam batendo tanto a cabeça do jeito que batem… E riu também, enquanto o copo vinha-lhe, sozinho, mais uma vez à boca, sem precisar nem se reacomodar na poltrona…

Todo mundo sabe que em mesa de bêbado não se resolve nada. Taí o Lula e o Jânio Quadros que não me deixam mentir… Assim, não vou ficar aqui repetindo toda a conversa, mesmo sabendo que os cachaceiros de plantão, os viciados em tecnologia e as moças curiosas em saber como se vestem as hoagueanas estejam interessadíssimos em saber como fabricam a cerveja cintilante, que tipo de ressaca ela dá, como o copo flutua sozinho e muito mais de Hoag. Levaríamos dias e dias explorando deliciosamente a metade superficial e tola da minha experiência lá. O problema é que voltei para cá com um misto de envergonhado e também bastante estimulado com a ideia de mudanças.

Acreditem-me, olhando a Terra da perspectiva de Hoag as diferenças abismais da qualidade de vida entre as diversas regiões aqui me envergonham muito. Ok, em Hoag eles também têm regiões com hábitos culturais distintos entre si, o que pode algumas vezes parecer ao mais desavisado que uma região viva melhor que outra, mas a verdade é que todos estão satisfeitos com as diferentes classes sociais resultantes da diversidade das ocupações das pessoas, e com hábitos culturais de sua própria região.

O desenvolvimento geral da vida em Hoag, desde os seus primórdios, foi muito distinto da Terra. Por condições específicas da atmosfera e da geologia locais, os vegetais comestíveis se desenvolveram em maior diversidade e abundância, permitindo que o metabolismo para extração de proteínas fosse muito menos complexa que aqui na Terra. O primeiro resultado foi que, embora a disputa por espaço naturalmente levasse a conflitos, a concepção de predador tornou-se muito diferente do que conhecemos hoje. A ausência da disposição ao conflito carnal permitiu que muito antes de nós as sociedades se tornassem mais cooperativas entre si, acelerando o desenvolvimento geral. Ao longo do tempo passaram por muitas experiências, inclusive a tentativa de subjugação por invasores de outras galáxias, as quais tiveram que se render ao poderio tecnológico e filosófico de Hoag.

Olhando de lá, de tão longe, da perspectiva de Hoag, me dei conta do quanto somos pequenos e atrasados. E solitários em nossa ignorância.

A verdade é que hoje em dia quando me chamam de lunático acho até graça…