Ensaio sobre a Vaidade, a Soberba, a Raiva e a Vergonha mediante a exploração de dois conceitos: a “Relativização de Status” e a “Incompressibilidade do Ego”

STATUS E EGO

v.15/10/15

Olhando o universo de forma menos emocionada, de uma perspectiva científica, ele é absolutamente frio e sem propósito. A partir dessa premissa – que não é a minha, mas a forma de ver da ciência atual -, a vida é sem sentido, embora persista e evolua estranhamente aqui nesse minúsculo planeta há bilhões de anos.

O sucesso da vida na Terra se ampara em dois vetores, sobrevivência e reprodução, os quais, não por coincidência, são os principais impulsos nos animais, pois têm como meta a perpetuação de seus genes. Para atingir os seus frios e firmes objetivos, a natureza dispensou a criação de regras morais, logo, se um macaco facilitar, o outro lhe rouba a comida. O mesmo ocorre com o sexo, onde não se dá muita importância ao falatório da vizinhança, mas somente se há ou não atração física e disponibilidade.

A partir apenas desses dois objetivos básicos – alimentação e procriação -, podemos explicar uma imensidão de comportamentos humanos do nosso cotidiano, todos amparados no que conceituei como “relativização de status” e “incompressibilidade do ego”. Ao final desse texto veremos como ambos se entrelaçam para formar a maior parte da nossa infraestrutura emocional e sua influência em nossa forma de pensar e se comportar.

A relativização de status

Imersa em um ambiente totalmente desprovido de compaixão, a mente de um animal precisa possuir recursos instintivos de estratégias de sobrevivência. A necessidade de comer, de obter energia, nos faz desejar territórios de caça e estoques de alimentos. Especialmente nos mamíferos a natureza forneceu um claro sistema de avaliação para ser usado ao longo de suas andanças, no pasto, na procura por frutas ou parceiros, durante a caça etc. Por meio de rápidos algoritmos mentais, que permitem avaliar se se está diante de um predador, de uma presa, ou mesmo de alguém neutro, a maior parte dos animais superiores – onde insetos não contam -, tem a capacidade de avaliar se o outro é de sua mesma espécie, se é maior ou menor que ele mesmo, se lhe parece agressivo ou venenoso etc. É uma avaliação praticamente instantânea, mormente guiada pela visão e olfato, que lhe força à decisão de ficar, lutar ou fugir, sem perda de tempo.

Como não identifiquei nas minhas aleatórias leituras científicas uma referência a esse tema, apelidei esse mecanismo de “relativização de status”, definido pela capacidade praticamente instantânea do cérebro de analisar o potencial geral do que está à sua frente – se é uma ameaça, uma vítima, ou mesmo alguém parecido consigo. Se estamos falando de uma espécie animal diferente, a pergunta adquire uma conotação específica: é aquele outro animal um feroz predador, uma frágil presa, ou apenas mais um inofensivo vegetariano? Se for da mesma espécie animal, o encontro pode resultar numa disputa por território, numa disputa por fêmea etc. Neste caso, cada parte precisa saber avaliar o risco do confronto, pois mesmo entre vegetarianos uma luta pode ser mortal.

Na natureza, a análise dessas circunstâncias tem muito a ver com a aparência, com o lado físico de cada animal, como o seu tamanho e/ou as habilidades de luta ou fuga intrínsecas à sua espécie. Interessa-me aqui, porém, a exploração desse tema nos tempos atuais e do quanto se parece com o mundo selvagem. Atualmente continuamos precisando trabalhar para nos alimentar e procriar, tal como os primeiros vertebrados sexuados começaram a fazê-lo há centenas de milhões de anos atrás. Analogamente, para o homem contemporâneo, dinheiro é o que territórios de caça e pasto, e seu potencial alimentar, significavam para os nossos antepassados. Dinheiro é pura energia para a sobrevivência. E quanto mais o temos, melhor, pois igualmente aumentam também as nossas chances de procriação. Da mesma forma como comparar tamanhos na natureza é uma necessidade para se determinar a posição na cadeia alimentar, comparar sinais de quem tem mais ou menos dinheiro também é uma necessidade moderna para analisar a posição social de quem está diante de nós. Não à toa, ir a uma reunião em São Paulo usando um Rolex de R$30 mil no pulso pode dar ao interlocutor uma ideia de posição socioeconômica do seu usuário.

Nesse jogo de regras duras pela sobrevivência, a capacidade de um animal perceber, ou mesmo compreender, quais as intenções dos outros, é também uma vantagem competitiva importante. Quanto mais sofisticada a mente dele, mais códigos comportamentais, como medo, tensão, hesitação e ansiedade, podem ser identificados, interpretados e transformados em pontos a favor. Daí a tendência, em havendo alguma chance de vitória em um confronto físico, de que cada animal se comporte como sendo o mais capaz. Em sendo da mesma espécie num mesmo grupo social, onde normalmente há um macho alfa, o potencial de vitória de um animal em um conflito interno determina a sua posição hierárquica. Em algum momento, cada animal experimentou ou observou que não se deve se indispor com o líder, em geral um grande lutador.

Conforme comentamos no início, os cérebros dos animais, inclusive os nossos, não vêm com instruções morais. A única competência que as mentes possuem é o de refrear impulsos inadequados. Essa competência é desenvolvida ao longo do tempo pelo aprendizado em situações onde as consequências foram ruins para a sua própria integridade física. Aquilo que interpretamos como regra moral, portanto, nada mais é do que o fruto das relações em sociedade, onde a conveniência de respeitar a liderança se evidencia cada vez mais ao longo do tempo.

Considere um leão nas savanas. Ele possui um território demarcado (muitas vezes por urina) cujo limite é um espaço reclamado por outra família de leões. Isso vale para várias espécies de predadores. Então é possível assimilar que, se não houvesse uma barreira física, o primeiro leão e sua família se expandiriam até onde a vista permitisse. Se olharmos com um pensamento “moderno”, veremos que o primeiro leão “respeita” o espaço do segundo, mas em verdade ele apenas sabe que se passar da sua fronteira arranjará uma briga de vida ou morte com o seu vizinho.

Porém, nem todo conflito por alimento representa um risco de morte. No exemplo do macaco roubando uma banana do seu colega, é provável que a possibilidade de encontrar outras bananas naquele território seja um caminho menos arriscado a seguir do que se indispor mortalmente com um “mau caráter”. Talvez o que esse rapaz mereça seja somente uma corridinha e um bom puxão de orelhas. Talvez, de tanto transgredir as regras de boas maneiras, fique “queimado” no grupo.

A imensa capacidade humana de comunicação aperfeiçoou sobremaneira a vida social. Consequentemente, aprendemos que é mais vantajoso um ambiente cooperativo, equilibrando e/ou refreando os nossos impulsos primários e egoístas. O resultado é o que vemos hoje: um imenso e sofisticado desenvolvimento social e tecnológico, enquanto aqueles com maior dificuldade em refrear os seus impulsos egoísticos vão sistematicamente ficando à margem da sociedade, ou mesmo sendo aprisionados em prisões e cadeias. É onde começa a confusão, pois quando notamos a nossa limitação para atender a um desejo, como obter R$1 milhão de qualquer maneira, somos ou não capazes de contê-lo? Quando nos irritamos com alguém, somos ou não capazes de dominar a nossa raiva?

Por outro lado, a capacidade de reconhecermos o mérito de alguém que esteja em uma posição hierarquicamente superior nos permite organizar a sociedade em partes que precisam de uma liderança e uma certa estratificação de status para funcionar adequadamente. Essa necessidade de hierarquização é tão profunda que a própria natureza se encarregou de instituí-la há tempos na maioria das espécies sociais, de insetos a mamíferos. Aliás, importante lembrar que todo organismo onde existe um cérebro é de per si uma estrutura onde bilhões ou trilhões de células acompanham os ditames desse órgão líder. Portanto, é mais que evidente a utilidade da hierarquia, pois as estruturas sociais em geral, e especialmente a humana, dependem de representações simbólicas que nos lembre o papel e a posição de cada um. Exatamente como na natureza.

No caso humano, onde é possível racionalizar melhor as forças que estabelecem as hierarquias, aqueles que estão acima de outros em suas posições precisam agir em conformidade com os mais altos propósitos em favor do conjunto, caso contrário perderão prestígio e, com ele, as justificativas que os mantém nessas posições. Em uma análise mais ampla da atividade social cotidiana, todos nós, com muito ou nenhum poder, seja ele permanente ou temporário, deveríamos agir sempre conscientes da importância de preservar a harmonia dos grupos onde estamos inseridos, respeitando todos os níveis, nunca com o coração afetado pela arrogância ou pelo orgulho, mas sim pelo senso de dever.

Examinemos alguns casos de hierarquia intrínseca à sociedade moderna:

  • Papa – não podemos achar que podemos convidar o papa para tomar um chope ali na esquina. Aliás, pelos mesmos motivos que jamais o veremos de bermudas na Praça de São Pedro. Papa Francisco, por sua vez, tem demonstrado humildade diante de seu papel.
  • Hierarquia parental – filhos não podem desrespeitar os seus pais, tios ou avós, especialmente aqueles que possuem o mérito de serem bons parentes. Por sua vez, pais, tios e avós não podem agir como se estivessem acima de questionamentos. Todos precisam dar o exemplo.
  • Hierarquia jurídica – acho importante haver uma deferência aos juízes, pois eles representam não a si mesmos, mas à Justiça. Um juiz, por sua vez, não pode achar que é Deus…
  • Hierarquia profissional – um diretor precisa ser visto e tratado como uma pessoa que tem a responsabilidade de condução da empresa. Espera-se, no entanto, que esteja à altura do cargo.
  • Hierarquia política – o Presidente da República precisa ser respeitado para que as suas decisões em favor da população como um todo sejam devidamente acatadas. Quando age apenas com o objetivo de se perpetuar no poder, atua em conflito de interesses, ou seja, perde o direto ao respeito e deve ser deposto.

O fenômeno da “relativização de status” nos leva a querer estar sempre acima do outro, nunca abaixo. Ele nos afeta o tempo todo, de muitas formas e em várias ocasiões. Nunca queremos ou nos permitimos aparentar inferioridade. Excetuando-se a disposição hierárquica naturalmente necessária para o bom funcionamento das sociedades, como comentado, comportar-se de forma vazia de utilidade como alguém superior é apenas permitir a atuação dos instintos mais primitivos que possuímos.

A incompressibilidade do ego

Ego significa “eu”. E como vimos acima, a sobrevivência do nosso “eu”, dos nossos genes, depende de grande competência para conseguirmos alimentos e parceiros disponíveis para acasalamento. Conforme a evolução transcorreu e as espécies se tornaram cada vez mais complexas, maior a necessidade de convivência em grupos sociais. Como consequência, desenvolveu-se a mais sofisticada das ferramentas biológicas para atendimento das necessidades e objetivos desse “eu”: a mente. A mente, portanto, é o próprio ego. Vamos procurar esclarecer aqui como a mente precisa se fazer respeitar para preservar a sua própria integridade.

A natureza dotou a mente do macaco com um gosto genérico por frutas e insetos. Analisando esses alimentos descobrimos que esse gosto é apenas a combinação da aptidão cerebral pelo sabor de nutrientes contendo açúcar (para energia) e proteína (para estrutura física) com a capacidade de serem metabolizados pelo macaco. É uma combinação especial, pois o galho da goiabeira pode até conter esses nutrientes, mas não pode ser digerido por um macaco.

Naturalmente, alguns alimentos no território do macaco são mais raros do que outros e, embora não saibamos ainda como acontece em detalhes, seu cérebro desenvolve um sistema de recompensas diferentemente para cada tipo de alimento. Por exemplo, ele pode gostar mais de amoras do que de bananas, simplesmente porque as primeiras são mais doces. Daí podemos concluir que o macaco pode estar disposto a maiores esforços, ou mesmo entrar em uma disputa física, por causa de amoras, mas não tanto por bananas.

Podemos dizer que uma amora é um vetor de interesse (VI) para o macaco, assim como o sexo. Logo, da mesma maneira que o nosso macaquinho pode se tornar mais competitivo e, portanto, mais agressivo, na disputa por amoras, ele pode ter também grande preferência por uma entre as doze macaquinhas do seu grupo. A verdade é que ele copulará com a primeira que lhe der bola, pois a natureza sempre busca o caminho mais fácil. Mas, ainda assim, provavelmente, assim como nas amoras, ele estará sempre inclinado a uma disputa mais violenta para possuir a tal macaquinha do que com relação às demais.

O que observamos na natureza e, por analogia, no universo humano, é que, uma vez estabelecida uma meta, que pode ser essencial ou por mero gosto, tornamo-nos inclinados a lutar mais ou menos por ela. Logo, a luta por um determinado objetivo cria em nós um vetor de interesse (VI), que pode ser forte ou fraco, a partir do qual estamos ou não prontos para uma ruptura.

Como vimos na relativização de status, o tamanho do oponente é um fator importante para avaliação de nossa chance de sucesso em uma disputa. Há nos animais, portanto, uma tendência generalizada de tentar se parecer maior, seja em termos físicos, intelectuais ou econômicos. Consequentemente, nas sociedades humanas temos também a necessidade de possuir certo tipo de aparência, ou seja, o maior quanto possível e ao mesmo tempo “redondo” e “liso” para podermos transitar sem esbarrar nas arestas dos outros egos do nosso próprio grupo social.

Para cada VI diferente há um esforço proporcional a se dedicar para a sua obtenção (ou retenção, proteção), conforme vimos no caso do macaquinho apaixonado. Temos inúmeros interesses diferentes, estratégicos ou triviais, grandes ou pequenos, como proteção da família, gosto por bebidas A ou B, gosto por comida C ou D, vontade de comprar um carro, vontade de casar, vontade de ter um salário maior, vontade de ler um livro, vontade de viajar, vontade de tomar um sorvete, vontade de calçar um tênis e assim por diante. São interesses que estão em nosso interior, debaixo da casca lisa que nos distingue como indivíduos. Felizmente ou infelizmente, esses interesses encontram barreiras de várias dimensões, em geral decorrentes de interesses contrários de outros indivíduos, seja porque você precise competir por dinheiro (energia) para adquirir o que quer ou por demonstrar um status maior pela simples possibilidade de parecer mais feliz que os outros.

Uma vez que somos redondos e lisos por fora e repleto de pontiagudos vetores de interesse por dentro, podemos imaginar que o nosso ego tem a figura de uma cajarana de superfície lisa e arredonda, mas cujo núcleo central é um caroço espinhoso, de tal forma que quem tentar adentrar essa superfície muito profundamente encontrará uma agressiva resistência, representada pelo sentimento de raiva. Cada “espinho” do caroço representa um VI. Como para cada VI estamos dispostos a um esforço distinto, maior ou menor, cada “espinho” possui também um tamanho diferente.

Há, porém, algumas diferenças nessa analogia. No caso do ego, a dimensão de cada “espinho” aumenta ou diminui de acordo a relação entre a força de vontade e a sua respectiva barreira. Se a vontade for pequena diante de uma barreira qualificada como intransponível, a tendência mais saudável é que ela diminua até sumir. É o que eu aconselharia ao Tiririca se ele quisesse uma noite de amor sincero com a Charlize Theron…

Muitas forças entram em ação diante dos interesses do nosso ego. Entre as principais há o estado emocional de fundo que, conforme definido pelo neurocientista Antonio Damasio, potencializa a nossa avaliação emocional dos eventos, tanto para o “bem” quanto para o “mal”. Se estamos irritados, por exemplo, cada espinho aumenta de tamanho, de maneira que quem contrariar determinado vetor de interesse, encontrará a resistência, o ponto de ruptura, mais acima, mais próximo da superfície da “cajarana”. Por outro lado, se estamos de bem com a vida ou mesmo apaixonados, relaxamos e os vetores de interesse podem se encurtar.

O problema é que estamos sempre muito mais predispostos a sentir raiva, em especial em situações de defesa de nosso suposto status, do que de procurarmos a paz e a afetividade entre as pessoas, que em geral significa a concessão de um espaço nosso, de generosidade, de igualdade de status. É como sempre digo à minha prole: “a raiva é a emoção mais barata enquanto o amor é a mais cara”. Sentir raiva é muito fácil, mas invocar o amor requer um esforço sempre muito maior, mas sempre vale a pena e é do que o mundo precisa.

Conclusões

Parece-me simples notar a interrelação entre os dois subtemas acima. O ego é desafiado a sobreviver e perpetuar-se por meio de descendentes. Logo, para manter-se íntegro e respeitado no seu meio social “defende-se” ou “ataca” conforme os outros egos interagem com ele. Para atender melhor essas necessidades tão básicas, e nos orientar mais facilmente, a sociedade humana evoluiu subdividindo-se em grupos mais específicos, menores, que podemos chamar de “tribos”.

Definida a tribo a que pertencemos, agimos com maior desenvoltura comportamental. Se adentramos em uma tribo muito diferente, rapidamente avaliamos se aquela situação está acima ou abaixo de nosso nível social e decidimos se ficamos – e nos socializamos -, ou se partimos.

A situação é mais complexa quando estamos em nosso grupo social, na nossa própria tribo. Em nosso cotidiano, seja na escola, no trabalho ou num grupo de amigos, estamos sempre alertas ao que os outros estão tentando fazer para se destacar acima de nós. O desconforto aparece porque, instintivamente sabemos que descer níveis representa uma potencial perda de respeito, significando uma ameaça ao nosso ganha-pão (sobrevivência) e mesmo à fidelidade de nossas companheiras (procriação). Desse jogo de interesses surgem os conflitos, tanto os de escala local quanto os de escala global. Difícil se contentar com a neutralidade. (Ver https://reestruturador.wordpress.com/2015/02/26/o-homem-universal/)

Engana-se quem acredita que o nosso cérebro trabalha somente por meio da lógica pura. As nossas decisões são fortemente afetadas pelas emoções, em especial aquelas onde os nossos interesses conflitam ou tangenciam os de outras pessoas. O orgulho, a vaidade e a arrogância, ao se misturar com a raiva, a repulsa, a inveja e a vergonha tornaram-se as principais emoções criadas pela natureza para lidar com essas situações. Desta forma, por exemplo, quando nossos algoritmos mentais identificam que algo está nos colocando em evidência acima dos outros, seja por qualquer razão – beleza pessoal, forma física, condição econômica, condição social -, emerge um sentimento de superioridade, que pode ser melhor descrito como orgulho ou vaidade. Ocorre que, se essa emoção transborda a ponto de ser notada por outras pessoas, estas, por sua vez, tenderão a se sentir inferiorizadas mediante a compressão de seu ego, o qual reage por meio da repulsa, da antipatia e da não aceitação. Ninguém gosta nem consegue se sentir bem, estando por baixo.

Um problema importante é o imenso desperdício em energia que empregamos em situações diagnosticadas de forma rasa pelo nosso cérebro. Esses recursos mentais, que foram criados para nos proteger em um meio selvagem, onde provar superioridade seria realmente uma questão de vida ou morte, modernamente criam situações ilógicas de tal maneira que frequentemente transformarmos a nossa vida em um inferno emocional sem a menor necessidade…

Saber perceber e qualificar aquilo que possa representar uma ameaça à nossa sobrevivência ou aos nossos interesses em geral é uma habilidade importante do nosso sistema sensorial e intelectual. Porém, quando observamos melhor o enorme conjunto de situações que vivemos no cotidiano, o que notamos é em verdade uma grande incompetência em perceber sua real amplitude, de forma que pudéssemos torná-los algo positivo ou aproveitável. O que mais vemos é a alimentação da arrogância, uma baixeza do ego, atraído pela competição banal, gratuita e infrutífera quanto a quem tem mais o quê. Pior, na maioria das vezes o falso ganho que pensamos ter quase nunca é algo realmente palpável, tratando-se apenas de vitórias fantasiosas.

A seguir elenco alguns exemplos onde somos vítimas ingênuas de nosso primitivismo, de nossa limitação analítica e emocional. O objetivo é exercitar em nós mesmos essas deficiências, o que nos dá a chance de atuar melhor na evolução da sociedade, no bem-estar e no respeito entre as pessoas, próximas ou não de nós.

  • Briga de casal – quem é casado conhece as disputas para ver quem tem razão sobre determinado assunto. Nessas horas ninguém quer ficar por baixo e parecer vulnerável. A todo momento procura-se elaborar argumentos que pareçam mais inteligentes que o outro para subjugá-lo e, metaforicamente, liquidá-lo. Mas, em ambas os lados, além da preocupação estratégica para vencer a disputa, outro fenômeno está em andamento: o ego se torna ainda maior e mais pontiagudo. Resultado? Ruptura emocional. O maior inconveniente em brigas crônicas de casal sobre quem detém o maior status é que este é o caminho contrário ao que deveria ser o objetivo de todo casal: tornar-se um só.
  • Separação de casais – nem sempre as amigas se sensibilizam quando uma moça se separa do marido ou namorado. É como se dissessem: “Eita! Essa aí se ferrou. Pelo menos ela não está melhor que eu…”. Não é à toa que escândalos sexuais e separações vendem tantos jornais – as pessoas tendem a se deleitar com a desgraça alheia.
  • Curiosidade mórbida – sempre que há um atropelamento fatal ou um assassinato as pessoas se aproximam e se acotovelam para ficar observando o cadáver. Alguém mais desavisado poderia imaginar que as pessoas estão ali preocupadas com o destino do falecido, mas em verdade acredito que a imensa maioria esteja lá se deleitando com a hipótese de estar diante de alguém em situação realmente pior que a sua própria. É como se dissessem: “Eita! Esse aí se ferrou. Estou melhor que ele…”. Não é à toa que notícias escabrosas de crimes vendem tantos jornais – as pessoas tendem a se deleitar com a desgraça alheia.
  • Separação de casais – nem sempre as amigas se sensibilizam quando uma moça se separa do marido ou namorado. É como se dissessem: “Eita! Essa aí se ferrou. Pelo menos ela não está melhor que eu…”. Não é à toa que escândalos sexuais e separações vendem tantos jornais – as pessoas tendem a se deleitar com a desgraça alheia.
  • Aluno que contesta professor dedicado – numa sala de aula é natural que se formem grupos, tribos, de maneira que os jovens se sentem compelidos a demonstrar uma atitude que lhe garanta o status de pertencimento ao grupo ou mesmo um destaque. Nessa linha, desafiar a autoridade máxima da sala, o professor, é como contar pontos em dobro nessa escala torta de prestígio. Um aluno que desafia a autoridade de seu dedicado professor não passa de um Zé Ninguém na verdadeira perspectiva da vida. Engana-se a si mesmo, apenas.
  • Colchão paraguaio – há muitos anos atrás, nós brasileiros comprávamos produtos no Paraguai que em verdade eram imitações fabricadas na China. Dada a sua baixa qualidade acostumamo-nos a atribuir a pecha de paraguaio a tudo o que não fosse bem feito. Como o Paraguai é um país subdesenvolvido, essa sensação de superioridade sempre nos fez muito bem. O problema é que não nos damos conta o quanto somos considerados inferiores a americanos, europeus etc.
  • Umbigo americano – a superioridade americana no campo econômico, militar, das ciências e tantos outros é inegável. Eles tiveram a sorte de fundadores esclarecidos e altamente inspiradores, enquanto nós… Embora haja mérito no colosso americano, é curioso observar que por se sentirem na terra prometida acreditam que o resto do mundo mereça viver no inferno. Bem, talvez seja devido a esse comportamento de regozijo do próprio status que atraia tanta inveja de grupos primitivos e atrasados, como o de radicais islâmicos. Se os EUA tivessem realmente foco em procurar meios de reduzir (via ações próprias, via ONU etc.) a sua diferença de status para outros países miseráveis, certamente seria visto com outros olhos.
  • Falsa intimidade com Deus – entre as maiores desgraças da relativização de status está essa maldita mania do ego humano de achar que sabe o que Deus pensa. Essa errônea avaliação de humanizar o pensamento divino tem levado as pessoas a guerras e conflitos intermináveis. Dispensável detalhar as confusões, grandes ou pequenas, tais como as Cruzadas, o terrorismo dos radicais islâmicos da atualidade, o evangélico que enche o saco com teorias inverossímeis, a exploração pelo pastor que procura trechos da Bíblia que validem o roubo consentido dos fiéis etc.
  • Brigas de gangues – Fico impressionado com a ideia das gangues (ou mesmo grupelhos escolares) se enfrentarem apenas para disputar a superioridade de um grupo sobre o outro. Observe que em geral não há disputa de qual grupo tem o melhor emprego, as melhores notas na escola, maior quantidade de diplomas, ou seja, não há disputa intelectual. A disputa é sempre quanto a quem é o mais forte. Há primitivismo maior que esse? Mais ridículo, impossível.
  • O novaiorquino – na cultura americana, especialmente em NY, há aquela sensação de que todos precisam mostrar “atitude”. É uma forma de se colocar como superior àqueles que, em sua visão, seriam medíocres. Ocorre que me parece muito claro que as relações humanas se beneficiam muito mais dos processos cooperativos, ou seja, daqueles casos onde a afabilidade atrai e motiva os grupos em torno de objetivos comuns. A pessoa que age assim me parece mais arrogante e infantil do que simplesmente uma “personalidade com atitude”.
  • Vergonha de perna machucada – conheço uma senhora de 77 anos que tem um pequeno ferimento na perna esquerda e precisa mantê-la enfaixada por recomendações médicas. Ocorre que ela tem vergonha de ir ao shopping porque alega que “estão todos olhando para a perna machucada”. Ora, para que se sente tão diminuída socialmente por causa de um pequeno ferimento? No fundo, seu instinto lhe diz que a aparência de um problema na perna a afasta de pretensos candidatos a casamento pois, na natureza, fêmeas que não pareçam saudáveis para procriação são desprezadas. Mas a inaplicabilidade lógica do caso dela não consegue se sobrepor à vergonha que sente.
  • Mudança diante de plateia – se alguém tem algum assunto particular a tratar com o seu chefe, faça-o em particular. Todos mudam diante de plateias objetivando parecer superior, logo, seu chefe sempre tenderá a parecer mais frio se houver outras pessoas olhando.
  • Pessoas que humilham prestadores de serviços, como domésticas, porteiros, garçons etc. – todos conhecemos casos de pessoas que, com o objetivo de se mostrarem superiores gostam de tratar os mais humildes com desprezo e superioridade. Particularmente, aos finais de ano, costumo agradecer a todos os que, ao longo do ano, me ajudam a proteger e a cuidar de mim dos meus familiares: porteiros, faxineiros, seguranças, garçons, mâitres. Se pararmos para pensar, em termos de estratificação social, somos também sempre inferiores a alguém, logo, por que nos deixarmos afetar por isso?…

Há ainda o argumento final de nossa pequenez cósmica.  Embora considere basilar o argumento de que não devemos nos sentir superiores pelo simples fato de que somos tão pequenos que não significamos nada para o universo, não gosto muito de usá-lo porque tem gente que simplesmente não alcança o seu significado. Para mim é suficiente a recomendação de assistirem a hilária e ao mesmo tempo brilhante apresentação no youtube do filósofo Mário Sérgio Cortella a respeito da pergunta “sabe com quem você está falando?”. https://www.youtube.com/watch?v=P3NpHryB-fQ

De resto, é torcer para que cada um encontre o seu próprio caminho evolutivo e que parem de bobagens.